domingo, 19 de abril de 2009

A Secular Age 4

(p. 15)
A grande invenção do Ocidente : uma ordem imanente na Natureza cujo funcionamento pode ser sistematicamente explicado nos seus próprios termos. Deixa em em aberto a questão de saber se esta ordem tem significado mais profundo e, a maior distância ainda, a do Criador transcendente.
(p.16)
Esta conceoção do imanente nega que haja interpenetração entre Natureza e o sobrenatural: Deus, espíritos, forças mágicas, etc.
Mas a própria noção de “transcendente” é problemática porque construída no processo de modernização/ secularização. A crença num “Deus transcendente” pressupõe já um certo grau de secularização. [A crença em em Deus é já um colocar Deus a uma certa distância]
(p.18)
Esta ontologia do naturalismo coincide historicamente – ou só é possível graças a – um “humanismo auto-suficiente” como opção socialmente válida: um humanismo que não aceita outros objectivos finais que o desenvolvimento/ florescimento (flourishing) da humanidade.
(p.19)
A “secularidade” é assim uma condição em que a nossa experiência e procura de “realização” (fullness) – é algo que todos partilhamos independentemente de sermos crentes ou não crentes.
- Questão à margem: actualmente há tentativas de reconstruir um humanismo não exclusivo numa base não religiosa – as várias formas de “ecologia profunda” (deep ecology).
(p.20)
“Secularidadeé consiste pois nas novas condições da crença – mas que por sua vez são condicionadas por crenças – é um novo contexto.
(p.22)
Taylor opõe-se assim ao que chama de “narrativas de subtracção” (“subtraction stories”): visões da modernidade e da secularidade em que estas surgem de uma perda ou libertação de certas ilusões, bloqueios, estreiteza de horizontes ou limitações de conhecimento. Contra ideia de que havia uma natureza humana cujo total florescimento era impedido por limitações que teriam deixado de existir: “Western modernity, including its secularity, is the fruit of new inventions, newly-constructed self-understandings and related practices , and can’t be explained in terms of perennial features of human life”.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Les Anges du Péché, um filme (religioso?) de Robert Bresson

No dia 7 de Março vi, na Cinemateca Portuguesa, o filme “Les Anges du Péché”, o primeiro filme de Robert Bresson, realizado em 1944. O argumento é de um padre dominicano, Leopold Brückberger, e inspira-se na experiência histórica de uma comunidade de religiosas dominicanas francesas que se dedicavam ao acompanhamento e reabilitação de prisioneiras.
As cenas passam-se quase todas dentro do convento e centram-se em duas personagens: Anne-Marie e Thérèse. Anne-Marie é uma jovem que abandona voluntariamente a vida do “mundo”, mesmo contra a vontade da mãe, para procurar a santidade dentro do convento. Thérèse é uma prisioneira que, depois de acompanhada pelas freiras enquanto cumpria a pena, também entrou no convento, mas para “fugir” da justiça. Anne-Marie empenha-se profundamente em cuidar de Thérèse, por quem se sente responsável, profundamente convencida de que o é por inspiração divina. Thérèse, porém, rejeita essa ajuda. A cena mais bela do filme é a do beijo de Thérèse nos pés do cadáver de Anne-Marie (simetria do beijo que dela recebera na prisão?), após o qual o filme encerra, mostrando-nos Thérèse a ser reconduzida à prisão. Perdoem-me por ter acabado de contar o filme.
No filme, o quotidiano deste convento enche-nos de “imagens” de misticismo, erotismo, auto-sacrifício, humilhação pública, redenção, diferentes motivações religiosas, diferentes noções de missão religiosa e de santidade, e por aí adiante.
Ficam aqui dois links:
http://archive.sensesofcinema.com/contents/cteq/01/17/anges.html
http://www.youtube.com/watch?v=E8OAkMfEn0A

segunda-feira, 16 de março de 2009

Para a história do crer



Na história do "crer", a questão do espiritismo tem de ser devidamente equacionada. Um pequeno artigo de Oliveira Marques (Para a história da comunidade espírita em Portugal, Coimbra, 2003) mostra bem da dimensão do fenómeno a partir dos anos 1880: várias dezenas de organizações espalhadas pelo país, e, quase tantas quanto elas, as publicações periódicas. Afonso Costa, "perseguidor" da religião, conta-se entre as várias personalidades que praticaram o espiritismo.

terça-feira, 10 de março de 2009

Secularização?




Nestas estatísticas publicadas no volume coord. por Nuno Valério (Estatísticas Históricas Portuguesas, vol. II, 2001), observa-se, entre 1900 e 1940 um aumento do número de indivíduos "sem religião" de 1454 para 347264. Ora, pelas minhas contas, relativamente à população recenseada, trata-se de um aumento de 0,03% para 4,5%. É significativo! Em contrapartida, de 1940 para 1960, essa percentagem diminuiu para 1,7%. Como explicar estas variações? Desvios causados pelo método de elaboração das estatísticas ou fenómeno real de secularização/ confessionalização? Notar também as variações relativas aos "outros cristãos" e aos "não cristãos". Que há por detrás destes números?

quarta-feira, 4 de março de 2009

Espiritualidade devocional

Em Nápoles fotografei este nicho votivo consagrado a Maradona, singular entre as centenas de San Gennaros, Madonnas, Gesús e Padres Pios espalhados pela cidade. Os habitantes de Nápoles vêem no seu génio futebolístico, que durante algum tempo fez a glória da cidade, uma manifestação de algo que é da esfera do sagrado. O devocional é memória colectiva, investimento emocional em símbolos partilhados, etc. Neste sentido, é "religião" em acepção durkheimiana. No entanto, Maradona não é visto como uma divindade nem colocado no mesmo plano que os santos: o seu pathos e as suas fragilidades humanas, redimidas pelos feitos desportivos, permitem simultaneamente uma identificação e um consolo, fazendo dele uma figura de mediação entre o alto e o baixo. Não se trata assim tanto de uma questão de crença quanto de uma forma espiritual. Remetendo para um conjunto de práticas de interioridade com expressão ética, a devoção é pois não só "religião", mas também forma de espiritualidade.
A matriz católica impede a divinização das figuras teofânicas (como acontece, por exemplo, no hinduísmo). O religioso manifesta-se nas figuras terrenas sem levar a uma divinização: há apenas "um" em que humano e divino co-incidem. Ocupando este «um» (Jesus) todo o espaço dessa co-incidência do humano e do divino, excluindo portanto a possibilidade de outras co-incidências, as manifestações "religiosas" (em sentido durkheimiano) no mundo católico implicam não a divinização de novas entidades, mas a formação de um sistema de mediações em expansão, i.e., capaz de assimilar novas figuras. Neste processo, as autoridades eclesiásticas tratam de garantir que as mediações se mantêm dentro de um quadro propriamente espiritual e não religioso (o que seria equivalente à divinização de novas entidades), processo de controlo que não se faz sem tensões. Seria apressado, no entanto, dizer que estas devoções relevam de uma «herança pagã». Pelo contrário, elas só existem num âmbito católico. Aqui a forma precede o conteúdo.
Muito se tem escrito sobre as manifestações de religiosidade devocional em Portugal. Mas que formas de espiritualidade implicam elas?

Catolicismo popular

Sobre o catolicismo popular no Brasil.

Religião de elite e religião popular

Colecção de ensaios, da revista Studies in Church History, em que se questiona «as visões convencionais de uma dicotomia clara entre a religião de elite e a religião popular, colocando em evidência as formas através das quais participantes de todo o espectro social partilham certas culturas religiosas [neste caso de referência cristã] - ainda que com razões diferentes e ressonâncias distintas - e enfatizando os diversos modos em que os elementos dessas cultura são apropriados pelos diferentes grupos sociais.»