Em Nápoles fotografei este nicho votivo consagrado a Maradona, singular entre as centenas de San Gennaros, Madonnas, Gesús e Padres Pios espalhados pela cidade. Os habitantes de Nápoles vêem no seu génio futebolístico, que durante algum tempo fez a glória da cidade, uma manifestação de algo que é da esfera do sagrado. O devocional é memória colectiva, investimento emocional em símbolos partilhados, etc. Neste sentido, é "religião" em acepção durkheimiana. No entanto, Maradona não é visto como uma divindade nem colocado no mesmo plano que os santos: o seu pathos e as suas fragilidades humanas, redimidas pelos feitos desportivos, permitem simultaneamente uma identificação e um consolo, fazendo dele uma figura de mediação entre o alto e o baixo. Não se trata assim tanto de uma questão de crença quanto de uma forma espiritual. Remetendo para um conjunto de práticas de interioridade com expressão ética, a devoção é pois não só "religião", mas também forma de espiritualidade. A matriz católica impede a divinização das figuras teofânicas (como acontece, por exemplo, no hinduísmo). O religioso manifesta-se nas figuras terrenas sem levar a uma divinização: há apenas "um" em que humano e divino co-incidem. Ocupando este «um» (Jesus) todo o espaço dessa co-incidência do humano e do divino, excluindo portanto a possibilidade de outras co-incidências, as manifestações "religiosas" (em sentido durkheimiano) no mundo católico implicam não a divinização de novas entidades, mas a formação de um sistema de mediações em expansão, i.e., capaz de assimilar novas figuras. Neste processo, as autoridades eclesiásticas tratam de garantir que as mediações se mantêm dentro de um quadro propriamente espiritual e não religioso (o que seria equivalente à divinização de novas entidades), processo de controlo que não se faz sem tensões. Seria apressado, no entanto, dizer que estas devoções relevam de uma «herança pagã». Pelo contrário, elas só existem num âmbito católico. Aqui a forma precede o conteúdo.
Muito se tem escrito sobre as manifestações de religiosidade devocional em Portugal. Mas que formas de espiritualidade implicam elas?
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