Na actual antropologia das religiões, conceitos como crença, cultura e ritual são questionados: fora de certos contextos do mundo ocidental, dificilmente se pode falar de crenças como conceitos abstractos. Questão a ter em conta na antropologia da missionação e da conversão.
sábado, 28 de fevereiro de 2009
A Secular Age 3
(p.9)
Certas formas de descrença são análogas de visões religiosas na medida em que se baseiam na visão de que as fontes da plenitude (“fullness”) estão algures noutro lado que não na razão: a radical liberdade do agente moral (Kant), na Natureza, ou/e no Eu profundo. Para os heróis da ciência, defensores de um naturalismo rigoroso, elas identificam-se com o exercício da razão.
Certas formas de descrença são análogas de visões religiosas na medida em que se baseiam na visão de que as fontes da plenitude (“fullness”) estão algures noutro lado que não na razão: a radical liberdade do agente moral (Kant), na Natureza, ou/e no Eu profundo. Para os heróis da ciência, defensores de um naturalismo rigoroso, elas identificam-se com o exercício da razão.
Em todo o caso, a razão « descomprometida » do Iluminismo criou uma divisão interna ao Homem entre pensar e sentir/ intuição
(p. 12)
No mundo pré-secular, os significados (constructos) morais/ espirituais são vividos como realidade imediata, como montanhas, rios, pedras. Alternativas que enfrentam: aproximar-se ou distanciar-se da plenitude, ser mais devoto ou mais mundano – mas não optar por diferente signficado ou horizonte de plenitude.
Modernidade secular: erosão da certeza imediata.
Saímos de condição em que maioria das pessoas viviam ingenuamente num constructo (“construal”), em parte cristão, em parte pagão, como “a realidade”, para outro em que quase ninguém é capaz disto [excepto os esquizofrénicos?] Navegamos entre duas posições, uma posição “comprometida” (“engaged”) em que vivemos o melhor que podemos a realidade que se nos oferece; e outra “descomprometida” (“disengaged”) em que podemos ver, com recuo, a nossa posição comprometida como uma entre várias possíveis. Reflexividade.
(pp. 12-13)
A sociedade moderna é feita de uma diversidade de “meios sociais”, mas em quase todos predomina a presunção da descrença. Mesmo no caso da se optar pela posição crente, esta funda-se na presunção da descrença.
Ou seja: crer em Deus no ano 1500 e em 2000 é algo de muito diferente.
Porquê? Porque todas as crenças existem num contexto daquilo que é dado por adquirido, o que na filosofia inspirada por Wittgenstein, Heidegger e Polanyi se designa de “background” ou “framework” (a estrutura em que se apoia a crença). As estruturas do passado e as do presente diferem em qualidade. As primeiras são ingénuas e as segundas reflexivas, já que estas vêem a crença à luz da estrutura em que se insere. Aqui os constructos espirituais séao apercebidos como constructos e não vividos de forma “ingénua”.
Taylor fala assim da modernidade como dum um “shift in background”. É esta mudança que permite distinguir “imanente” e “transcendente”, “natural” e “sobrenatural”. A “natureza” é um constructo da modernidade.
(p.14)
Questão histórica: como se passou de uma estrutura “naïve” para uma estrutra “reflexiva”.
(p. 12)
No mundo pré-secular, os significados (constructos) morais/ espirituais são vividos como realidade imediata, como montanhas, rios, pedras. Alternativas que enfrentam: aproximar-se ou distanciar-se da plenitude, ser mais devoto ou mais mundano – mas não optar por diferente signficado ou horizonte de plenitude.
Modernidade secular: erosão da certeza imediata.
Saímos de condição em que maioria das pessoas viviam ingenuamente num constructo (“construal”), em parte cristão, em parte pagão, como “a realidade”, para outro em que quase ninguém é capaz disto [excepto os esquizofrénicos?] Navegamos entre duas posições, uma posição “comprometida” (“engaged”) em que vivemos o melhor que podemos a realidade que se nos oferece; e outra “descomprometida” (“disengaged”) em que podemos ver, com recuo, a nossa posição comprometida como uma entre várias possíveis. Reflexividade.
(pp. 12-13)
A sociedade moderna é feita de uma diversidade de “meios sociais”, mas em quase todos predomina a presunção da descrença. Mesmo no caso da se optar pela posição crente, esta funda-se na presunção da descrença.
Ou seja: crer em Deus no ano 1500 e em 2000 é algo de muito diferente.
Porquê? Porque todas as crenças existem num contexto daquilo que é dado por adquirido, o que na filosofia inspirada por Wittgenstein, Heidegger e Polanyi se designa de “background” ou “framework” (a estrutura em que se apoia a crença). As estruturas do passado e as do presente diferem em qualidade. As primeiras são ingénuas e as segundas reflexivas, já que estas vêem a crença à luz da estrutura em que se insere. Aqui os constructos espirituais séao apercebidos como constructos e não vividos de forma “ingénua”.
Taylor fala assim da modernidade como dum um “shift in background”. É esta mudança que permite distinguir “imanente” e “transcendente”, “natural” e “sobrenatural”. A “natureza” é um constructo da modernidade.
(p.14)
Questão histórica: como se passou de uma estrutura “naïve” para uma estrutra “reflexiva”.
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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
Da importância de não sistematizar
Numa obra clássica da antropologia (The Interpretation of Cultures, 1973), Clifford Geertz analisa a religião tradicional do Bali, sincretismo de hinduísmo, cristianismo e cultos locais. Chama a atenção para o facto de que descrições académicas tendem a intelectualizar algo que é da ordem das práticas num “sistema religioso” – sistematização que não existe na cultura analisada. Um raciocínio idêntico deve ser aplicado aos cristianismos populares, sob risco de se olhar para as suas manifestações como versão espúria do “verdadeiro” cristianismo (este juízo é teológico, não histórico) e se abordar o objecto com uma grelha que não se lhe adequa. Mesmo dentro do cristianismo há cristianismos racionalizados e cristianismos pouco sistematizados. Os primeiros não se reduzindo à teologia, ambos são quadros de experiência. Ver de que forma eles simbolizam diferentemente a estrutura social (para Geertz, a religião é também um sistema de simbolização da desigualde social). (pp. 175-178).
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
Extraordinary bodies
Um artigo interessante sobre a santidade e o milagre na transição para a modernidade.
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Etnográfica
Chamo a atenção para a revista Etnográfica: contém alguns artigos de antropologia das religiões em contextos cristãos. Ver, sobretudo, os primeiros números e o último, com um dossier sobre "Cristianismos europeus na viragem do milénio, perspectivas etnograficas". Com excepção do último número, todos os artigos podem ser enontrados online em pdf.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
A Secular Age 2
(p.4)
Taylor comenta o facto de os estudos sobre a secularização se centrarem habitualmente na primeira e segunda acepções : deve-se em grande parte ao facto de o cristianismo se definir em termos de afirmações de credo. A secularização tende assim a ser vista como declínio das crenças cristãs, efeito do predomínio de crenças concorrentes : a ciência, a razão ; ou teorias cientificas particulares : a teoria evolucionista e as explicações neuro-fisiológicas do funcionamento mental. Reproduzem esquema de estudante do final do sécc. XIX, que teria afirmado que « Darwin refutou a Bíblia ».
Crença e descrença vistas assim como teorias rivais.Sem negar que as acepções 1) e 2) integram o processo de secularização, Taylor opõe-se, quer à interpretação exclusiva de secularização como subtracção progressiva da religião das várias esferas sociais e 2) declínio da crença religiosa, supostamente em consequência da prevalência de outras crenças. E necessário introduzir uma terceira dimensão 3). A secularização é pois um processo multidimensional, em que as três dimensões estão interligadas.
Na acepção3, a crença e a descrença não são entendidas de forma puramente intelectual (teorias rivais) mas como formas através das quais as pessoas dão sentido à sua existência, e moralidade. Deus, a natureza, etc. são assim entendidas como formas de dar sentido [horizontes de sentido].
(p.5) O que é viver como crente e o que é viver como não crente ? Difer
entes formas de dar sentido à experiência. (pp. 5-6) Taylor faz o que podemos aqui chamar de fenomenologia dos horizontes de sentido Principais conceitos :
Fullness : a experiência de preenchimento ou exaltação [tradução imperfeita de fullness]
Exile: alienação, medo, angústia
Middle position: posição média; zona estável entre as duas experiências extremas, construída pelas rotinas que contribuem para uma felicidade ordinária mas nunca completa.
Como concebemos, por exemplo, os “lugares de preenchimento” (places of fullness)? Com ou sem referência a Deus?
(p7)
Fenomenologia da posição média para um crente: necessita de contacto regular com o sentido, contacto com “the place of fullness”, e ideia de movimento gradual em direcção a esse lugar.
Para um não crente: a posição média é tudo aquilo que há; ela não se distingue dos lugares de preenchimento; estes não são um “outro lugar” mas identificam-se tendencialmente com a posição média.
(p.8)
Analisarmos as dimensões típicas da vida humana como identificações de fullness, modes of exile and types of middle condition permite-nos compreender crença e descrença como condições de vida e não como conjuntos de crenças ou teorias.
[Taylor constrói assim uma grelha de análise da secularização tridimensional, especificando, na dimensão estrutural, a acepção 3) das condições de crença, três categorias da fenomenologia da vida espiritual. Notar aqui a centralidade da noção de experiência religiosa, que se filia na leitura da obra de William James, tema de publicação anterior de Taylor, e que este estende à experiencia da alienação e da felicidade ordinária] .
Taylor comenta o facto de os estudos sobre a secularização se centrarem habitualmente na primeira e segunda acepções : deve-se em grande parte ao facto de o cristianismo se definir em termos de afirmações de credo. A secularização tende assim a ser vista como declínio das crenças cristãs, efeito do predomínio de crenças concorrentes : a ciência, a razão ; ou teorias cientificas particulares : a teoria evolucionista e as explicações neuro-fisiológicas do funcionamento mental. Reproduzem esquema de estudante do final do sécc. XIX, que teria afirmado que « Darwin refutou a Bíblia ».
Crença e descrença vistas assim como teorias rivais.Sem negar que as acepções 1) e 2) integram o processo de secularização, Taylor opõe-se, quer à interpretação exclusiva de secularização como subtracção progressiva da religião das várias esferas sociais e 2) declínio da crença religiosa, supostamente em consequência da prevalência de outras crenças. E necessário introduzir uma terceira dimensão 3). A secularização é pois um processo multidimensional, em que as três dimensões estão interligadas.
Na acepção
(p.5) O que é viver como crente e o que é viver como não crente ? Difer
entes formas de dar sentido à experiência. (pp. 5-6) Taylor faz o que podemos aqui chamar de fenomenologia dos horizontes de sentido Principais conceitos :
Fullness : a experiência de preenchimento ou exaltação [tradução imperfeita de fullness]
Exile: alienação, medo, angústia
Middle position: posição média; zona estável entre as duas experiências extremas, construída pelas rotinas que contribuem para uma felicidade ordinária mas nunca completa.
Como concebemos, por exemplo, os “lugares de preenchimento” (places of fullness)? Com ou sem referência a Deus?
(p7)
Fenomenologia da posição média para um crente: necessita de contacto regular com o sentido, contacto com “the place of fullness”, e ideia de movimento gradual em direcção a esse lugar.
Para um não crente: a posição média é tudo aquilo que há; ela não se distingue dos lugares de preenchimento; estes não são um “outro lugar” mas identificam-se tendencialmente com a posição média.
(p.8)
Analisarmos as dimensões típicas da vida humana como identificações de fullness, modes of exile and types of middle condition permite-nos compreender crença e descrença como condições de vida e não como conjuntos de crenças ou teorias.
[Taylor constrói assim uma grelha de análise da secularização tridimensional, especificando, na dimensão estrutural, a acepção 3) das condições de crença, três categorias da fenomenologia da vida espiritual. Notar aqui a centralidade da noção de experiência religiosa, que se filia na leitura da obra de William James, tema de publicação anterior de Taylor, e que este estende à experiencia da alienação e da felicidade ordinária]
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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
A Secular Age 1
Introdução
(p. 1)
Questão introdutória :
- Que significa dizer que (nós) vivemos numa era secular ?
Mas, antes de mais, quem é este “nós”? R: é sobretudo o mundo do Atlântico norte, ainda que a secularização se estenda a outras partes do mundo, em maior ou menor grau. Contudo é necessário ter presente que o mundo islâmico, India e África não são universos seculares.
Em que consiste a secularidade? 2 tipos de resposta:
1) Em termos de espaços públicos
Resposta centrada em instituições comuns e práticas, sobretudo as do Estado: ideia de que enquanto nas sociedades pré-modernas as organizações políticas eram garantidas por uma fé, referência a Deus ou uma certa noçéao de reqlidqde última, o Estado moderno é livre desta ligação. Grã-Bretanha e países escandinavos: não existe separação Estado-Igreja, mas na prática a ligação é tão pouco exigente que não constituem excepção. A religião torna-se assunto privado e a sociedade política é formada por crentes de todo o tipo e não crentes.
(p. 2)
- nas sociedades não seculares pré-modernas, neste sentido, o religioso encontra-se a todos os níveis da vida pública. As formas básicas de organização sao religiosas: a paróquia, a guilda, etc. A sociedade representa-se a si própria por meio de cerimónias religiosas : a procissao do Corpus Christi etc. – e remontando mais no tempo, em sociedades ditas arcaicas, a religião não se distingue de nenhum aspecto da sociedade: político, económico, etc. – não constituía uma esfera àparte. A religião está em todo o lado, quer em termos de prescrições [normatividades], quer em termos de presença ritual
- nas sociedades seculares, cada esfera tem uma racionalidade própria
- este esvaziamento de esferas sociais tornadas autónomas é absolutamente compatível com uma vasta maioria de pessoas acreditando em Deus e praticando a religião activamente: ex. Da Polónia comunista e dos EUA
2) Em termos de declínio da fé e das práticas religiosas
Neste sentido as sociedades ocidentais tornaram-se largamente seculares, mesmo quando há vestígios da referência a Deus nos espaços públicos
- Charles Taylor propõe um terceiro sentido, que será a ideia basilar do livro:
(p. 3)
3) Em termos de condições da crença
Secularidade: assinala a transição de uma sociedade em que a crença em Deus é dada por adquirida e não problemática para uma sociedade em que tal crença é uma opção entre outras, e frequentemente não a mais fácil de abraçar.
- Neste sentido, os EUA como um todo são um país secular, contrariamente à maioria dos países islâmicos e Índia. E elevadas estatísticas de prática religiosa nos EUA pouco signficado têm na constatação da secularidade dos EUA. Porquê? Porque há grandes diferenças entre o modo de crer num e noutro tipo de sociedades. É uma opção num universo, não o é no outro.
[Conceitos-chave: secularidade; condições de crença]
(p. 1)
Questão introdutória :
- Que significa dizer que (nós) vivemos numa era secular ?
Mas, antes de mais, quem é este “nós”? R: é sobretudo o mundo do Atlântico norte, ainda que a secularização se estenda a outras partes do mundo, em maior ou menor grau. Contudo é necessário ter presente que o mundo islâmico, India e África não são universos seculares.
Em que consiste a secularidade? 2 tipos de resposta:
1) Em termos de espaços públicos
Resposta centrada em instituições comuns e práticas, sobretudo as do Estado: ideia de que enquanto nas sociedades pré-modernas as organizações políticas eram garantidas por uma fé, referência a Deus ou uma certa noçéao de reqlidqde última, o Estado moderno é livre desta ligação. Grã-Bretanha e países escandinavos: não existe separação Estado-Igreja, mas na prática a ligação é tão pouco exigente que não constituem excepção. A religião torna-se assunto privado e a sociedade política é formada por crentes de todo o tipo e não crentes.
(p. 2)
- nas sociedades não seculares pré-modernas, neste sentido, o religioso encontra-se a todos os níveis da vida pública. As formas básicas de organização sao religiosas: a paróquia, a guilda, etc. A sociedade representa-se a si própria por meio de cerimónias religiosas : a procissao do Corpus Christi etc. – e remontando mais no tempo, em sociedades ditas arcaicas, a religião não se distingue de nenhum aspecto da sociedade: político, económico, etc. – não constituía uma esfera àparte. A religião está em todo o lado, quer em termos de prescrições [normatividades], quer em termos de presença ritual
- nas sociedades seculares, cada esfera tem uma racionalidade própria
- este esvaziamento de esferas sociais tornadas autónomas é absolutamente compatível com uma vasta maioria de pessoas acreditando em Deus e praticando a religião activamente: ex. Da Polónia comunista e dos EUA
2) Em termos de declínio da fé e das práticas religiosas
Neste sentido as sociedades ocidentais tornaram-se largamente seculares, mesmo quando há vestígios da referência a Deus nos espaços públicos
- Charles Taylor propõe um terceiro sentido, que será a ideia basilar do livro:
(p. 3)
3) Em termos de condições da crença
Secularidade: assinala a transição de uma sociedade em que a crença em Deus é dada por adquirida e não problemática para uma sociedade em que tal crença é uma opção entre outras, e frequentemente não a mais fácil de abraçar.
- Neste sentido, os EUA como um todo são um país secular, contrariamente à maioria dos países islâmicos e Índia. E elevadas estatísticas de prática religiosa nos EUA pouco signficado têm na constatação da secularidade dos EUA. Porquê? Porque há grandes diferenças entre o modo de crer num e noutro tipo de sociedades. É uma opção num universo, não o é no outro.
[Conceitos-chave: secularidade; condições de crença]
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